segunda-feira, 12 de julho de 2010

Este artigo é extraído do trabalho de conclusão de curso, resultante dos três anos de iniciação científica,no qual fui bolsista (PIBIC/CNPQ). Seu objetivo é levantar, através da questão sobre a História, umapossibilidade de diálogo entre o pensamento de Max Weber e o de Michel Foucault. Tentou-seestabelecer uma mediação de cunho teórico que visasse aproximar as reflexões destes autores, semcom isso, estabelecer uma certa ”continuidade” do pensamento de um, em relação ao outro. Por meio dealgumas passagens de obras dos respectivos autores, estabelecemos uma certa afinidade temáticaentre ambos, isto é, como a questão da história iluminou os diferentes pensamentos de Weber eFoucault. Neste sentido o artigo tem um caráter, eminentemente, exploratório e especulativo. Apreocupação na feitura do artigo é mostrar uma possibilidade de trabalhar em pesquisa de iniciaçãocientífica em ciências sociais com um diálogo entre referencial teórico e pesquisa empírica, buscandouma ampla compreensão tanto de um, como de outro.ABSTRACTThis article is extracted of the work of course conclusion (TCC), resultant of the three years of scientificinitiation (IC), in which I was scholarship holder (PIBIC/CNPQ). Its objective is to raise, through thequestion on History, a dialogue possibility between the thought of Max Weber and of Michel Foucault. Itwas tried to establish a mediation of theoretical matrix that aimed at to approach the reflections of theseauthors, without with this, to establish a certain ”continuity” of the one thought, in relation to the other. Bymeans of some passages of the works of the respective authors, we establish a certain thematic affinitybetween both, that is, as the question of history illuminated the different thoughts of Weber and Foucault.In this sense, the article has a character, eminently, speculative and exploratory. The concern in theelaboration of the article is to show a possibility to work in research of scientific initiation in social scienceswith a dialogue between theoretical referential and empirical research, searching an ample understandingin such a way of one, as of another one.2Temos como objetivo neste breve artigo tecermos algumas considerações deordem teórica1 que foram de máxima importância para os três anos de iniciação científica,experiência que culminou na feitura do trabalho de conclusão de curso com o título:Teologia ecumênica uma teologia política? Um estudo sobre as práticas sociais do saberteológico do ecumenismo em Belém do Pará. Neste sentido, este artigo é um fragmentodo citado trabalho que foi adequado para a forma de artigo com o interesse de exporcomo o referencial teórico escolhido podia ser articulado ao trabalho de coleta de dadosrealizado.Pretende-se desta feita estabelecer uma breve discussão sobre uma questão quesegundo pensamos perpassa o pensamento de Max Weber e Michel Foucault, isto é, aquestão da história, ou melhor, como estes pensadores, com diferentes modos de pensar asociedade, parecem ter uma possível convergência temática no que concerne àproblematização sobre a História. Partir-se-á, primeiramente, da tríade conceitualweberiana acerca das relações de poder e, em seguida, se passará a um texto de Foucaultno qual ele trata, especificamente, da questão acerca do sentido da História.Posteriormente, faremos uso de algumas passagens nas quais Max Weber realiza suaproblematização sobre as relações entre História e sociologia, chegando ao seudiagnóstico do “desencantamento do mundo”(die Entazauberung der Welt),profundamente marcado por sua concepção de História do ocidente.O fio condutor quesitua a reflexão dentro destes diferentes elementos do pensamento weberiano é estarciente que existe uma questão maior que dá unidade à sua obra. Esta questão de cunhoteórico-metodológico é o significado do processo de racionalização no ocidente. Oprocesso de racionalização em Weber é muito mais amplo que a noção de1 No trabalho de conclusão de curso buscamos através do método compreensivo, ampliar nosso entendimentoacerca do mesmo e, com isso, nos utilizarmos mais adequadamente deste para futuras pesquisas.3desencantamento do mundo, contudo, estes conceitos não podem ser desvinculados noque tange ao conjunto da obra de Weber, pois, às vezes surgem como correlatos emdiferentes passagens de algumas obras de Weber como, por exemplo, na Ética protestantee na Ciência como Vocação.Neste percurso sobre as respectivas considerações sobre a História tiveramdiferentes implicações no modo como, por exemplo, irão compreender as relações depoder2 na sociedade moderna. Na sociologia política de Weber, resumidamente, o poder éde consistência aquosa, de difícil especificação sociológica. É bom lembrar que fazemparte do aparato conceitual weberiano no que tange a sua sociologia política a tríadeconceitual de poder, dominação e disciplina. Esta tríade de conceitos lança luzes sobre oque para Weber estaria fundamentando as ações sociais; sendo a dominação aquela demaior precisão quando se trata de estudos de ordem empírica, é possível identificar, emmaior ou em menor grau, sua presença na ação de relações de dominação.“A dominação, como conceito mais geral e sem referência a algum conteúdo concreto, é um dos maisimportantes elementos da ação social. Sem dúvida nem toda ação social apresenta uma estrutura queimplica a dominação. Mas, na maioria de suas formas, a dominação desempenha um papel considerável,mesmo naquelas em que não se supõe isto à primeira vista”.(WEBER: 2000, p.187)Como dito acima, fica evidente que o conceito de dominação é sociologicamentemais viável, pois, apresenta uma gama de exemplos do ponto de vista empírico, já oconceito de poder, é, na maioria das vezes, utilizado por Weber como complementaràquele. Isto quer dizer, que, em Weber, o poder não é propriedade, pois não tem umaforma que emane de uma certa concepção de “contrato social”; isso nos remete a outro2 No que diz respeito à sociologia política de Max Weber as relações sociais só podem ser entendidas nocontexto de uma relação social com sentido, evidentemente que o conceito de poder em Weber como ele mesmo dizé “amorfo”, isto quer dizer que ele não circunscreve o poder a um local, como se ele emanasse de algum lugar ou dealguém, neste sentido, o poder como Weber conceitua pode se dar nas mais variadas relações, mesmo naquelas quefogem à circunscrição do Estado. Vemos, desta forma, que poder para Weber não emana de um contrato. “Podersignifica toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qualfor o fundamento dessa probabilidade”.(WEBER: 2000 p.33).4conceito referente à sociologia política, isto é, à disciplina. Ela tem como uma de suasmais importantes características (...) o adestramento mecanizado e o encaixamento doindivíduo em um mecanismo inescapável, que exige seu ‘acompanhamento’ e que oincorpora à formação global, por assim dizer, ‘automaticamente’...”(WEBER: 2000p187.). Como observado, as técnicas de disciplina podem se desenvolver nas diversasrelações sociais, inclusive aquelas de conteúdo expressamente religioso; um exemplodado por Weber se refere aos exercícios espirituais da Ordem de Santo Inácio de Loyola.Passamos agora a expor como Weber e Foucault podem ser aproximados. Estaaproximação não tem como objetivo fazer um estudo que busque mostrar como Foucaultfaz utilização de Weber, se é que faz em sua obra. Esse empreendimento é por demaishercúleo para um pequeno artigo. Muito louvável seria um estudo de tal magnitude, pois,ajudaria na compreensão, tanto de um autor, como de outro, mas, devemos ressaltar quenão ambicionamos de forma alguma que nesta breve discussão se sinalize em tal direçãovisto que nos faltam o rigor e a habilidade para um empreendimento tão gigantesco.O primeiro texto de que lançamos mão é “Nietzsche, a genealogia e a história”;nele, Foucault evidencia o fio condutor de sua perspectiva sobre a História e, de certaforma, o modo de sua utilização à prática do historiador. Devemos ressaltar que Foucaultirá discutir alguns termos que Nietzsche utiliza, propositalmente, para se distinguir daforma metafísica que pode dominar o conhecimento histórico, impedindo que se faça umainterrogação crítica a respeito do que acontece no presente.Entre os termos que definem a empreitada da genealogia, como forma de fazer virà tona a história efetiva, que difere daquela dos historiadores, encontra-se o termoemergência (Entstehung) que, de acordo com Foucault, é um dos termos usados, deforma estratégica, por Nietzsche para não fazer uso do termo origem (Ursprung). ParaFoucault, Nietzsche usa às vezes este termo de forma arbitrária, mas, na maioria dasvezes seu uso é estratégico e visa denunciar a história dos historiadores que possui o víciode se apoiar em fundamentos metafísicos para sustentar seu trabalho histórico. EmFoucault, a pesquisa da emergência permite à genealogia dissociar as unidades que a5história tradicional unificou deixando-as intocáveis como verdadeiras pedras angulares doconhecimento histórico. Assim que Nietzsche, para Foucault, em vez de usar o termoorigem em suas análises, o substitui ou por emergência (Entstehung) ou proveniência(Hercunft).O emprego destes dois termos em Nietzsche é tão acentuado que eles seencontram em uma perspectiva completamente oposta ao “sentido histórico”, na históriados historiadores, e que adquire outro contorno na história efetiva. Naquela, o sentidohistórico era algo solene, como se a história fosse provida de um sentido, quepaulatinamente se desvelaria ante o olhar imparcial do historiador, já a história efetiva,como visto acima, põe em circulação tudo aquilo que se julgava sem História, ou comobase, para se conhecer a História, indicando que nem a História escapa da máquinagenealógica construída por Nietzsche. Resumidamente, pode ser dito que não há nenhumsentido histórico que seja um fim último e imutável, muito pelo contrário, falar emsentido histórico, de acordo com a genealogia, como modo crítico de feitura da história, émostrar como se dá o aparecimento da descontinuidade: “... o sentido histórico escaparáda metafísica para tornar-se instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apóiasobre nenhum absoluto”.(FOUCAULT: 1997, p27)É bom que seja mencionado outro texto de Foucault, cuja argumentação é umaexplanação sobre o que caracteriza a perspectiva nietzscheana sobre a história,o texto aque nos referimos é intitulado “A verdade e as formas jurídicas”. Nele, especificamente,em sua primeira conferência, Foucault faz menção a uma história política doconhecimento. E, mais uma vez, ele se ancorará em Nietzsche como modelo de análisehistórica e, novamente, se contraporá às infiltrações metafísicas que poluem a história,não permitindo que o historiador realize uma interrogação sobre a história do presente.Em sua apreciação acerca da emergência do conhecimento, como resultado de lutaspolíticas, Foucault dá uma boa demonstração da genealogia em ação e que, de algumaforma, ajuda a que se compreenda o que significa fazer uma pesquisa cujo alvo é sergenealógica. “O próprio sujeito de conhecimento tem uma história, a relação do sujeito6com o objeto, ou, mais claramente, a própria verdade tem uma história”.(FOUCAULT:1999 p.11).Citamos estes dois textos, porque consideramos que neles se encontram bonsmotivos para que acentuemos, que tanto Foucault como Max Weber mantêm relaçõescom Nietzsche no que se refere à sua concepção sobre a história. Já mencionamos queFoucault faz um extenso estudo sobre os termos que Nietzsche opõe explicitamente àorigem, talvez aí resida uma convergência temática no que concerne às respectivasconcepções de história, tanto de Foucault como de Weber, que, como se evidencia, sãotributárias do pensamento nietzscheano. Mas elas não devem ser vistas como simétricas,no sentido de serem complementares. Muito curiosamente o termo emergência aparece naobra mais conhecida de Max Weber, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”como uma forma de Weber buscar uma resposta sobre a especificidade do processo deracionalização ocorrido no ocidente, este termo permite ainda entendermos que paraWeber a racionalização não é um sentido inerente ao ocidente no que diz respeito àorigem de nossa civilização.Há também por parte de Weber uma certa preocupação emfazer uma problematização sobre a história do presente.“Assim, numa história universal da cultura, mesmo de um ponto de vista aparentemente econômico, não é,em última análise, o desenvolvimento da atividade capitalística como tal, diferindo nas diversas culturasapenas quanto à forma... É antes a origem (entstehung) desse sóbrio capitalismo burguês com suaorganização racional do trabalho. Ou em termos de história da cultura, é o da origem (entstehung) daclasse burguesa ocidental e suas peculiaridades, um problema que está com certeza estritamente ligado aoda origem (entstehung) da organização capitalista do trabalho, embora não se trate da mesma coisa. Poisos burgueses como classe existiam antes do desenvolvimento das formas peculiares de capitalismo,embora, de fato, apenas no hemisfério ocidental” (WEBER: 2001 p.30).Nesse curto fragmento do texto de Weber, citado sem nenhuma arbitrariedade, seevidencia sua recusa a uma História Universal, ela é insuficiente para dar conta dasespecificidades, ou multiplicidades de forças que foram responsáveis pela emergência docapitalismo, ou melhor, do ethos capitalista. Em outra parte do mesmo texto, Weber sepreocupa em demonstrar como não havia nenhum tipo de fim pré-determinado para que ocapitalismo se consolidasse, antes, uma multiplicidade de forças que se chocaram é que oengendraram e são algumas destas forças que Weber quer marcar (deixar que emerjam)7em sua obra. Esse tipo de posicionamento concernente à história, de acordo com algunscomentadores da obra de Weber, é fruto de uma apropriação, feita por ele, de Nietzsche3.“Weber repudiou claramente a noção de evolução, qualificando-a de ‘escroqueria romântica’. Não queriaouvir falar dessa noção, nem sob sua forma dialética, nem sob sua forma organológica. Essa atitudenegativa traduz sua renúncia a toda e qualquer história universal, história que ele pretendia substituir poruma sociologia comparativa onde apenas os fenômenos paralelos desempenhariam algum papel e nãolinhas laterais de evolução”.(FLEISCHMANN: 1977, p.149)A noção de história em Weber está articulada com sua compreensão a respeito doprocesso de racionalização ocidental, que é um dos elementos que ele procurou demarcarem todas as suas pesquisas, principalmente, seus estudos sobre as religiões mundiais. Oque de mais característico se apresenta em sua concepção de racionalização é que paraWeber nem mesmo este processo pode ser visto como um sentido último que significariaa história ocidental, muito pelo contrário a racionalização tem uma história, ou ainda,historias.Assim, com a utilização de Nietzsche em sua obra, Weber se desvincula de umapesquisa histórica da origem, para se filiar a uma pesquisa ancorada na concepçãonietzscheana de emergência que também cintila na obra de Foucault como já foimencionado acima. Weber está preocupado em mostrar como se deu a formação doocidente moderno, que se pretende universal, mas, que tem um momento de emergênciasaturado de História.“Entendemos bem a questão, distinta daquela do determinismo histórico. Não se trata de saber se, naopinião de Weber, a emergência (grifo nosso) de certa forma particular de civilização que realiza oocidente moderno era historicamente inelutável. Certamente, o conceito weberiano de história, construídosobre as ruínas de toda a escatologia religiosa, assim como dos seus diversos avatares metafísicos, excluitoda idéia de um desenvolvimento necessário cujo fim prescrito desde sempre fosse esta civilização”.(COLLIOT-THELENE: 1995, p.75)Considerando esta citação, fica evidente que, no pensamento weberiano acerca dahistória estão inscritas as marcas do pensamento de Nietzsche. Até no comentário feito3 Uma das comentadoras da obra de Weber Catherinne Colliot-Théléne, fazendo uso de estudos já realizados acercada influência de Nietzsche sobre o pensamento de Weber, diz que por volta de 18995-96 é perceptível uma certamudança de linguagem na obra de Weber que de acordo com uma carta dele à sua mulher de 26 de julho de 1894situa a primeira leitura sistemática que ele fez de Nietzsche entre 1893 e 1894. (COLLIOT-THELENE: 1995, p.46)8pela comentadora da obra de Weber se faz uso do termo emergência, destacando, destaforma, que ele faz uso do termo à moda nietzschiana, sendo este mais ajustado à suaconcepção de história, dando a entender que o termo origem não só não consta, como,também, se opõe à empreitada weberiana de história do ocidente, sendo até repudiadocomo forma de fazer a história.Em se tratando do uso da História em Weber que se dá através de seus conceitos,os tipos ideais ele, mostra como se dá a gênese destes conceitos que, como se podeperceber, não têm afinidade com o mundo a conhecer. O que implica em dizer que eles seconfiguram como um esforço para organizar o “caos” que é o mundo empírico; o real écarente de uma ordem que se compatibilize com qualquer que seja o arranjo de conceitosque lhe sejam atribuídos. Esse é para Weber um pressuposto que o acompanhará atéculminar nos estudos que se referem à teoria da ciência. Tal precaução, também, é muitousada por estudiosos que procuram vincular o método compreensivo weberiano àscriticas de Nietsche ao conhecimento.Após apresentarmos alguns poucos aspectos do pensamento de Weber, queencontram apoio no seio do pensamento de Nietzsche, aspectos que já foram alvo deestudos de pesquisadores que procuraram perceber as conexões existentes entre estesautores, posteriormente voltaremos a outras ressonâncias que ainda precisam serressaltadas. Mas, não podemos nos desgarrar de nosso interesse de pesquisa que éjustamente a utilização de Weber articulada com Foucault, para isso julgamos que jáexistem elementos substanciais para que avancemos um pouco mais na justificativa deaproximar os dois autores. Devemos fazer então menção ao estudo da autora SandraCoelho de Souza, que em seu trabalho sobre a obra de Foucault faz referência em relaçãoa algumas citações feitas por ele sobre Weber: “que se pense em Hegel, em Nietzsche.“Que se pense nos ‘pós-hegelianos, na escola de Frankfurt e em Lukacs, passandotambém por Feuerbach, Marx, Nietzsche e Weber’. Foucault lembra as múltiplasanálises que serviram de apoio à questão filosófica do que foi o Aufklärung...” (SOUZA:2000 p.71-72).9É bom que se diga que nesta passagem do texto de Sandra Souza ela fazreferência à utilização do texto de Kant “O que é o esclarecimento?”, por parte deFoucault, nele é possível identificar a preocupação de Kant que diz respeito a umainterrogação sobre o presente. É incômodo com o presente que é registrado por Kant e éessa uma das ferramentas críticas da qual Foucault tira proveito para demonstrar que aí seencontra a tarefa filosófica dos nossos dias. Entre os autores listados por Foucault, que sefiliam a esta tradição, se encontra Max Weber, que para a autora significou uma dasmúltiplas abordagens sobre o presente encontradas em Foucault. Na esteira dainterrogação kantiana, Foucault deixa muito evidente que ele não é o primeiro a fazer estainterrogação em articulação com o texto de Kant, pois há toda uma tradição depensamento que se filia a esta forma de interrogação sobre o presente. Neste sentido,pode ser dito a abordagem weberiana é uma das interrogações críticas acerca do presente,sendo um dos desdobramentos da questão kantiana a respeito do esclarecimento noocidenteSemelhante preocupação perpassa o pensamento weberiano, só que evidentemente nãopor meio do mesmo enfoque, mas uma coincidência é que mesmo percebendo que aracionalização ocorrida no ocidente tem pretensões universais, como um destinoinevitável do ocidente, mesmo assim é possível identificar que em Weber, “esse destinoinevitável”, é uma forma de mascarar que a racionalização não é um processohomogêneo, e muito menos contínuo.“Ao estudarmos qualquer problema da história universal, o produto da moderna civilização européiaestará sujeito á indagação de quais combinações de circunstâncias se pode atribuir o fato de na civilizaçãoocidental, e só nela, terem aparecido fenômenos culturais que, como queremos crer, apresentam uma linhade desenvolvimento de significado e valor universais”.(WEBER: 2001 p.21).Podemos então dizer que, em Weber, a razão ocidental teve seu nascimento apartir do desrazoável, para isso ele se deterá em compreender como se deu aracionalização das condutas a partir de elementos não racionais como por exemplo oascetismo intramundano calvinista.10Em se tratando da questão de interrogação do presente, evocada por Foucault emum de seus textos mais conhecidos, ele textualmente expõe sua utilização da genealogianietzscheana, para fazer: “A história dessa microfísica do poder punitivo seria então umagenealogia da ou uma peça para uma genealogia da ‘alma’ moderna. A ver nessa almaos restos de uma ideologia, antes reconheceríamos nela o correlativo atual de uma certatecnologia do poder sobre o corpo”.(FOUCAULT: 2004, p28).“Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto,partir de sua ‘origem’, negligenciando como inacessíveis todos os episódios da história; será, aocontrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos começos; prestar uma atençãoescrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rostodo outro; não ter pudor de ir procurá-las lá onde elas estão, escavando os basfond; deixar-lhes otempo de elevar-se do labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob suaguarda”.(FOUCAULT: 1997, p.19).O movimento da genealogia é o da espiral, isto significa dizer que ele parte não de umcomeço fixado em uma certa “continuidade” histórica, ou de um fluxo dialético no qualcada momento procedente representa a superação daquele que o antecedeu. ComoFoucault nos mostra é preciso fazer a história dos elementos que estão na base dasubjetividade ocidental e não se deixar seduzir por esta subjetividade; a genealogiafoucaultina exorciza a origem da história, ou seja, a história não tem nenhuma verdadeaprisionada.Passamos agora a desenvolver, a partir de algumas citações que fazem referênciaàs ressonâncias do pensamento de Nietzsche sobre a teoria dos tipos ideais de Weber. E,através destas ressonâncias, encontrar uma aproximação de Foucault que esteja tambémancorada na utilização que ele faz de Nietzsche.Existem estudos que procuram fundamentar as contribuições de Weber paraquestões de ordem teórica que se referem à construção de conceitos que sejam aptos paraconhecer o real empírico. A contribuição weberiana se dá em mostrar, fundamentalmente,11como se dá a gênese dos conceitos por ele usados em seus trabalhos. Os tipos ideais comoWeber os explicita em sua obra, são uma forma de ordenamento do caos empírico, pois, arealidade que compõe este caos é muito mais rica que esses conceitos, que terminam porencapsulá-la, mas mesmo esse paradoxo insuperável requer que se compreenda como osconceitos são inventados pelo pesquisador.“Weber, a construção da noção de tipo-ideal articula-se diretamente com a crítica da noção de lei - o que,aliás, neste diálogo, poderia ajudar-nos a aprofundar a relação, não tão óbvia, em Nietzsche, entre acrítica da linguagem e a da lei. O tipo ideal parece enquadrar-sena discussão de Nietzsche sobre alinguagem, antes de mais nada porque é: A)uma utopia;B) inevitável;C) extremado.(VELHO: 1995, p.82)Como já foi anteriormente mencionado a noção de tipo ideal em Weber nãoresulta de um conhecimento científico necessário, que justificaria conhecer o mundo.Antes, porém, o tipo é o resultado de uma incompatibilidade entre o conceito e o mundo,daí ser possível verificar a necessidade que o tipo apresenta de estar a todo o momentosendo inquirido sobre sua validade.Há uma passagem de um texto de Nietzsche em que Otávio Velho acima citadofaz uma afirmação que consistiria em dizer que Weber seria devedor da contribuição queNietzsche legara acerca da compreensão dos conceitos, que são muito mais um meio doque um fim.“Pensemos ainda na formação dos conceitos. Toda a palavra torna-se logo conceito quando nãodeve servir, como recordação, para a vivência primitiva, completamente individualizada e única à qualdeve seu surgimento, mas ao mesmo tempo tem de convir a um sem-número de casos, mais ou menossemelhantes, isto é, tomados rigorosamente, nunca iguais, portanto, a casos claramente desiguais. Todoconceito nasce por igualação do não-igual”.(NIETZSCHE: 2000 p.56).Para Otávio Velho, há nesta passagem uma espécie de constatação que desnudatoda e qualquer tentativa de fazer dos conceitos algo que eles não são. Assim, por essalição nietzscheana sobre a formação de um conceito busca-se registrar o caráter deutilidade que se fixa à prática da conceituação, não há aí nenhuma indicação que se refiraà verdade ou não do conceito. Nesta constatação de Nietzsche estaria a ponte para filiar aconcepção weberiana de tipo-ideal ao pensamento nietzscheano.12O pesquisador tem que estar apercebido de que os conceitos por ele elaboradosexaurem, por um lado, as diferenças que são específicas aos fenômenos e, por outro, sãode extrema utilidade para o pensamento. A única ressalva que VELHO faz, com relação àdiferença na utilização desta constatação, é que aquilo que em Weber se encontraseparado, como questões relativas ao método e em relação ao poder, em Nietzsche essasquestões aparecem juntas.“Portanto a construção de tipos-ideais abstratos não interessa como fim, mas única eexclusivamente como meio de conhecimento. Qualquer exame atento dos elementos conceituais daexposição histórica demonstra, no entanto, que o historiador – logo tenta ir além da mera comprovação derelações concretas, para determinar a significação cultural de um evento individual, por mais simples queseja... construções conceituais deste tipo, mediante as quais procuramos dominar a realidade por meio dareflexão e da compreensão, deverá ser determinado mediante a descrição...” (WEBER: 2001 p.144).Toda tentativa do historiador de ir além dos limites que seu saber conceitual quelhe permite se configura, de acordo com Weber, em um esforço inútil. Outro elementorevelador contido nesta passagem é justamente a incompatibilidade entre os conceitostipos-ideais e a realidade, incompatibilidade no que se refere a uma relação de dominaçãoque perpassa o conhecimento da realidade. Assim, vemos que enraizado nessa afirmaçãodo próprio Weber fica patente sua noção de perspectivismo relativo ao conhecimentoproduzido pela sociologia compreensiva, que é um desdobramento do que ele chama de“politeísmo de valores” justifica a escolha do objeto de análise. Estes valores sedigladiam uns aos outros, para que deles venha a emergir o vencedor, que nem sempre é omais forte.Esse politeísmo é ponto de partida para dominar a realidade por meio dos tiposideais,vemos que esta noção weberiana é fruto de um afrontamento entre valoresirreconciliáveis e, indefinidamente, belicosos. Percebemos então dois mundos que cercamo conhecimento empírico da realidade pretendido por Weber, um é o mundo objetivo daciência causal e o outro é o mundo subjetivo dos valores extracientíficos. Parece queambos os mundos se opõem, mas, também parecem estar irrevogavelmente unidos oumesclados, como se aí se encontrasse também a condição do homem moderno, com suaconduta de vida racionalizada e, que, entretanto, não encontra justificativa última para13suas ações a não ser arriscar-se no caótico mundo dos valores antagônicos4. Será que estaoposição entre estes dois mundos encontraria um correlato no próprio Nietzsche, que emum de seus textos se refere à relação entre o mundo dos fins e da vontade em oposição aomundo dos acasos, mas é melhor que nos remetamos ao próprio texto de Nietzsche.“Habituamo-nos a acreditar em dois reinos, o reino dos fins e da vontade e o reino dos acasos; nesteúltimo tudo se passa sem sentido, nele tudo vai, fica, e cai sem que ninguém pudesse dizer, por quê? Paraquê? – Temos medo desse poderoso reino da grande estupidez cósmica, pois aprendemos a conhecê-lo, omais das vezes, quando ele cai sobre o outro mundo, o dos fins e propósitos, como um tijolo do telhado enos atinge mortalmente algum belo fim: Essa crença nos dois reinos é um antiqüíssimo romantismo efábula: nós, anões espertos, com nossa vontade e nossos fins, somos molestados pelos estúpidos,arquiestúpidos gigantes, os acasos, atropelados por eles, muitas vezes esmagados sob seus pés – masapesar de tudo isso não gostaria de ficar sem a horripilante poesia dessa vizinhança, pois muitas vezesesses monstros vêm quando a teia de aranha dos fins tornou-se para nós demasiado enfadonha ouangustiante e proporcionam uma sublime diversão, se alguma vez sua mão dilacera a teia inteira - não queo tivessem querido esses irracionais! Mas estendem suas grosseiras mãos ossudas através de nossa teia,como se fosse ar”. (NIETZSCHE: 2000, p.153).Há nesta passagem do texto de Nietzsche suficientes motivos para acreditarmosque a noção de politeísmo de valores que Weber apresenta como ponto de partida para apesquisa científica, bem como em relação aos posicionamentos políticos que o agentepode ter, ficam bem ilustradas como tributárias do pensamento nietzsheano. Assim, comoele nos demonstra a proximidade entre os fins e acasos, sendo talvez muito mais claro quea forma como Weber se apropria desta contribuição que Nietzsche legou tanto aosaspectos que se referem à epistemologia, como à ação política. Vemos, desta forma, quepor mais que se queira fundamentar de forma segura a ciência sobre postulados quelegitimem, tais fins de conhecimento demonstram-se como frágeis ante “o mundo do semsentido”. Mundo, que tão de perto foi espreitado por Weber quando se dedicou àcompreensão da sociedade moderna, interrogando, como essa sociedade chegou a ser oque é, querendo com isso mostrar a falta de necessidade que é peculiar à nossa história.“Aprendamos, portanto, porque está mais que no tempo para isso: em nosso pretenso reinoparticular dos fins e da razão reinam igualmente os gigantes! E nossos fins e nossa razão não são anões,mas gigantes! E nossas próprias teias são dilaceradas por nós mesmos com tanta freqüência e tãoestabanadamente quanto pelos tijolos!... -deve-se acrescentar: sim, talvez haja somente um reino, talvez não4 Para Fleischmann é um traço distintivo da personalidade intelectual de Weber, o fato de ele ter optado pelaconvicção nietzscheana de que é à vontade de poder que dá condições para que se possa conhecer a realidade social(FLEISCHMANN: 1974).14haja nem vontade nem fins, e fomos nós que os imaginamos. Aquelas mãos de ferro da necessidade, quesacodem o tabuleiro de dados do acaso, jogam seu jogo por um tempo infinito: têm de aparecer nele dadosque parecem perfeitamente semelhantes à finalidade e racionalidade de todo grau”.(NIETZSCHE: 2000p.154).A oposição entre estes mundos, de acordo com Nietzsche, era um artifício dospovos antigos, para disporem de uma proteção contra as travessuras divinas, sendo umaforma de conjuração dos poderes divinos, tornando-os submissos. Já o cristianismoinverte essa relação colocando no seio deste mundo do acaso a sabedoria do deus eterno eabsconditus. No entanto, o diagnóstico nietzscheano sobre a modernidade é muito maissurpreendente quanto o paradoxo cristão, pois é muito provável que exista somente umúnico reino. E, o outro reino tenha sido somente fruto de nossa imaginação , que precisa atodo o momento se desfazer com a mesma facilidade com que foi feito, visto que mesmoaquilo que consideramos como proposital é na verdade fruto do afrontamento de forçascegas que se dão no acaso.É mais que oportuno dizermos, que esse texto de Nietzsche, cuja, referênciajulgamos adequada para ilustrar a concepção de politeísmo de valores, que perpassa ateoria do tipo-ideal em Weber, também é citado por Foucault, quando ele descreve asforças que se arriscam na história, ou a que põe em jogo. Nesta passagem ele busca banirqualquer vestígio de uma espécie de noção cristã de intenção primordial, que se atrele àhistória5. A história efetiva provocada pela genealogia só conhece um único reino “... omundo da história ‘efetiva’ conhece apenas um único reino, onde não há nemprovidência divina, nem causa final, mas somente ‘as mãos de ferro da necessidade quesacode o copo de dados do acaso’” (FOUCAULT: 199, p. 28).Como podemos ver, Foucault segue em sua genealogia as pegadas de Nietzschede uma forma muito mais clara do que a evocada por Weber. A passagem de Nietzsche épropositalmente utilizada para que sejamos capazes de perceber como a concepção detipo-ideal se comportaria diante da referência nietzscheana que, como já ressaltamos, é5 Os historiadores deveriam aprender com os cabalistas que, por meio de combinações das letras do nome sagrado,conjuram a tradição a expelir o novo. Eles se valem dos mais diversos pontos de emergência da tradição talmúdica ea usaram contra ela mesma , mesmo assim, fazem da cabalá uma tecnologia que a tradição não pode negar.15textualmente citada por Foucault. Pretendemos fazer mais uma referência, que aindajulgamos útil para nosso estudo de utilização de Weber e Foucault na presente pesquisa,nos referimos a um texto de Francisco Ortega “Apêndice. Michel Foucault e Max Webersobre o governo e direção da vida”.Nesse estudo Ortega compreende que o tema da “direção da vida” é umaproblemática que pode muito bem aproximar ambos os autores, ainda que ele mesmoconfesse que tem consciência de que suas obras tenham sentidos diferentes, mas,considerando toda dificuldade inerente a esta tarefa, a relação entre estes autores épossível. “Meu intuito nestas páginas não consiste em apresentar todos os aspectos destarelação, mas mostrar como a concentração de Max Weber no problema da direção davida coloca-o na proximidade da concepção foucaultiana do poder comogoverno”.(ORTEGA: 1999, p45).Para Ortega, A ética protestante e o espírito do capitalismo é um bom exemplo decomo Weber pensava a elaboração da vida tipicamente racionalizada do homemmoderno. Ortega acredita que mesmo os estudos de doutrina da ciência que Weberdesenvolveu sofrem ressonâncias de sua concepção de direção da vida, isto se refere aoantagonismo de valores ao qual acima ressaltamos. Outra evidência da convergência entreambos é seu diagnóstico sobre a modernidade, que seria orientada pela perspectiva dadireção da vida. Weber veria na disciplina do homem moderno, engendrada pela ascesecristã, o modo de viver típico do ocidente, já para Foucault a sua descrição das disciplinasseria o correlato da concepção weberiana de modernidade. Bom, o esforço que aquiempreendemos, como dissemos no início, buscou somente aproximar os dois autores, natentativa de construirmos um nexo explicativo provisório no qual em suas respectivasperspectivas sobre a história.Palavras-chave: História, compreensão, desencantamento do mundo, genealogia.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.16COLLIOT-THÉLÉNE. Catherine. Max Weber e a história. São Paulo: Brasilense.1995.FLEISCHMANN. Eugenne. 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Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva.ed 3.Brasília:editora Universidade de Brasília, 2000.V.I__________. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva.ed 3.Brasília:editora Universidade de Brasília, 2000.V.II.

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